Rastreabilidade e sustentabilidade: qual é a relação?
A sustentabilidade deixou de ser um diferencial competitivo na pecuária e passou a ser uma exigência cada vez mais presente em toda a cadeia produtiva. Compradores, frigoríficos, mercados internacionais e órgãos reguladores querem saber, com clareza, de onde vêm os animais e qual foi a trajetória percorrida por eles até chegarem ao abate e é a rastreabilidade que permite responder a essas perguntas com dados confiáveis, em vez de promessas.
Essa conexão entre origem, trajetória e sustentabilidade é o que este artigo explora.
Por que a origem dos animais importa?
As exigências relacionadas à origem dos produtos de origem animal cresceram significativamente nos últimos anos, impulsionadas tanto por pressões de mercados internacionais quanto por uma preocupação crescente com os riscos socioambientais associados às cadeias produtivas, como desmatamento, conversão de áreas nativas e uso irregular da terra.
Diante desse cenário, produtores, frigoríficos e demais elos da cadeia precisam estar preparados para responder perguntas cada vez mais frequentes, entre elas:
- De onde veio esse animal?
- Por quais propriedades ele passou ao longo de sua vida?
- Quais informações estão disponíveis sobre sua trajetória, desde a origem até o abate?
- Existem riscos socioambientais associados à propriedade de origem ou às propriedades pelas quais o animal passou?
Essas perguntas deixaram de ser exclusivas de auditorias pontuais e passaram a integrar processos contínuos de verificação. Um exemplo prático desse movimento é discutido no artigo sobre embargos da União Europeia e como a rastreabilidade ajuda a reduzir riscos para a pecuária brasileira, que mostra como a origem de um animal pode impactar diretamente o acesso a determinados mercados.
EUDR e o avanço das exigências por cadeias livres de desmatamento
Um dos exemplos mais claros desse movimento de aumento das exigências é a EUDR, o Regulamento da União Europeia sobre Produtos Livres de Desmatamento. A regulamentação estabelece que produtos como carne bovina e couro, quando destinados ao mercado europeu, precisam comprovar que não estão associados a áreas desmatadas ou convertidas após uma data de referência estabelecida pela norma.
Regulamentações desse tipo aumentam consideravelmente a necessidade de informações capazes de apoiar a verificação da origem dos produtos e a avaliação de riscos relacionados ao desmatamento e à conversão de áreas. Não basta mais saber apenas o frigorífico de destino, é preciso ter subsídios para comprovar toda a trajetória do animal até a propriedade de origem, algo que já foi tratado com profundidade no artigo sobre EUDR e rastreabilidade bovina: como comprovar origem sustentável.
A EUDR é, na prática, um exemplo de um movimento muito mais amplo. Outras geografias e outros compradores também vêm ampliando suas próprias exigências de diligência socioambiental, o que reforça que investir em rastreabilidade não deve ser tratado como resposta pontual a uma única norma, mas como uma capacidade estrutural da operação.
Como a rastreabilidade apoia a produção sustentável no Brasil
A rastreabilidade não serve apenas para atender a exigências externas, como a EUDR. No contexto brasileiro, ela também é uma ferramenta prática para fortalecer a sustentabilidade da própria operação. Ao permitir acompanhar com precisão a origem e a trajetória de cada animal, ela ajuda produtores e frigoríficos a adotar e comprovar boas práticas pecuárias, como manejo sustentável de pastagens e recuperação de áreas degradadas e a comprovar que essas práticas estão, de fato, sendo aplicadas ao longo de toda a operação, o que fortalece a contribuição da pecuária para a regeneração de ecossistemas.
Um dos pontos mais sensíveis desse debate é o monitoramento de fornecedores indiretos, especialmente na Amazônia. Diferente da compra direta, em que o frigorífico tem relação comercial explícita com a fazenda de origem, as aquisições indiretas, feitas por meio de propriedades intermediárias, historicamente escapam de boa parte dos controles socioambientais. Levantamentos recentes mostram que uma parcela relevante do gado comprado por frigoríficos na região já apresentou algum tipo de problema socioambiental, e o tema tem ganhado ainda mais peso diante do avanço da fiscalização sobre compras indiretas a partir de 2027.
É justamente nesse ponto que uma infraestrutura de dados conectados faz diferença: ao tornar visível toda a trajetória de um animal, incluindo as propriedades por onde ele passou antes de chegar ao comprador final, a rastreabilidade reduz a zona cega que hoje permite que animais de origem irregular entrem na cadeia por vias indiretas. Isso está alinhado a uma agenda mais ampla de sustentabilidade da pecuária brasileira, que conecta rastreabilidade a metas como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).
O desafio socioambiental da cadeia pecuária
Um dos pontos mais importantes, e também mais frequentemente subestimados, é que avaliar apenas a origem imediata de um animal pode não oferecer uma visão completa de sua trajetória. Um animal pode ter nascido em uma propriedade, sido transferido para outra em fase de recria e finalizado em uma terceira antes do abate. Cada uma dessas propriedades carrega seu próprio histórico e seus próprios riscos socioambientais associados.
Por isso, uma avaliação de risco robusta depende de conectar diferentes camadas de informação, entre elas:
- Origem dos animais, ou seja, a propriedade em que o animal nasceu ou iniciou sua trajetória registrada;
- Movimentações, isto é, todas as propriedades pelas quais o animal passou ao longo de sua vida, incluindo fases de recria e engorda;
- Informações socioambientais, relacionadas tanto às propriedades envolvidas quanto aos próprios animais, incluindo aspectos sanitários e de manejo.
A questão das movimentações, em especial, é um dos pontos mais sensíveis da cadeia, já que sua fragmentação dificulta a reconstrução da trajetória completa de um animal. O tema é aprofundado no artigo sobre cadeia de custódia de brincos bovinos: como garantir rastreabilidade do início ao abate, que detalha como a identificação individual sustenta esse acompanhamento ao longo de toda a vida do animal. Vale destacar ainda que sistemas nacionais de identificação, como os discutidos no artigo com 8 perguntas que todo pecuarista tem sobre o PNIB, também fazem parte dessa base de informações que sustenta a rastreabilidade da cadeia.
É importante reforçar um ponto central: a rastreabilidade, por si só, não garante conformidade socioambiental ou atendimento à EUDR. Mas, ela é uma das bases que permite conectar a origem e a trajetória dos animais às análises e informações necessárias para essa avaliação.
Tecnologia para conectar rastreabilidade e sustentabilidade
Conectar origem, movimentações e informações socioambientais de forma manual é praticamente inviável em uma cadeia com o volume e a complexidade da pecuária brasileira. É nesse contexto que a tecnologia se torna a base para estruturar essas diferentes camadas de informação de forma confiável e acessível.
O RadarBov atua justamente nesse papel, servindo como base para:
- Identificação individual, permitindo reconhecer cada animal de forma única ao longo de toda a sua trajetória, utilizando RFID.
- Acompanhamento das movimentações, registrando de forma estruturada as propriedades pelas quais cada animal passou, desde a origem até o abate;
- Análises socioambientais, conectando as informações de origem e movimentação a critérios de risco relacionados às propriedades envolvidas;
- Geração de informações e relatórios, transformando dados em relatórios organizados, capazes de apoiar tanto a gestão interna quanto a comprovação de conformidade perante compradores e reguladores.
Essa capacidade de transformar registros em estratégia é o que diferencia uma operação que apenas coleta dados de uma operação que efetivamente os utiliza para tomar decisões, como falamos no artigo “dados no campo: como transformar registros em estratégia na pecuária”.
Conclusão
A relação entre rastreabilidade e sustentabilidade não está apenas em cumprir exigências regulatórias, mas em construir uma cadeia produtiva capaz de responder, com dados confiáveis, às perguntas que mercados, compradores e reguladores fazem cada vez com mais frequência. Origem, movimentação e informações socioambientais precisam estar conectadas para que essa resposta seja completa.
Plataformas como o RadarBov foram desenvolvidas justamente para dar conta dessa complexidade. Ao integrar identificação por RFID, cadeia de custódia de brincos e tracking de transporte com geolocalização, a ferramenta permite acompanhar a linha do tempo completa de cada animal, da propriedade ao abate, mesmo em operações a campo sem conexão com a internet.
À medida que regulamentações como a EUDR se tornam mais comuns e mais exigentes, produtores e demais elos da cadeia que já contam com uma base sólida de rastreabilidade estarão em posição mais favorável para comprovar boas práticas e manter acesso aos mercados mais exigentes. A tecnologia, nesse cenário, não substitui a gestão nem a análise de risco, mas oferece a estrutura necessária para que a origem e a trajetória de cada animal deixem de ser uma incógnita e passem a ser um dado disponível, confiável e acessível.